Por Sergey A. de Araújo
A chuva desta madrugada e manhã foi a mistura de circulação marítima com áreas de instabilidade pontuais. A circulação marítima são os ventos que trazem umidade do oceano em direção ao litoral. Neste dia as direções de nordeste, leste e sudeste foram registradas na estação meteorológica do Porto de Itajaí/Univali no molhe do Atalaia. Nós não vemos a evaporação do oceano. Toda vez que a radiação chega na parte superior do oceano, dos lagos, açudes etc., essa energia penetra e esquenta a coluna d’água. Como resposta temos a evaporação. Essas pequenas gotículas se juntam ao ar e o deixam mais leve. A água tem peso molecular menor do que a atmosfera, com isso deixa uma parcela de ar mais leve e por processo convectivo (movimento vertical) sobe condensando e formando nuvens. Quanto mais rápido subir por causa do calor e da umidade mais rápido condensa e geralmente temos a formação de nuvens de exagero vertical. A mais famosa é a cumulonimbus, que traz tempestade entre outras coisas. A água precipitável se concentra na parte baixa e média das nuvens. Na parte alta somente gelo. Dentro das nuvens por causa de componentes químicos, poeiras as gotículas se juntam, ficam maiores e mais pesadas, e pela gravidade temos a precipitação. Dependendo deste processo de calor, umidade, condensação e aglutinação temos quantidades de chuva diferentes. Nesta madrugada e manhã essas nuvens com muita água se deslocaram em parte pelo oceano e uma parte sobre o litoral entre Navegantes, Florianópolis e Palhoça. Tanto que tivemos grande volume de chuva registrado nas estações junto ao mar. Nas estações mais afastadas, menor chuva.
O porquê da dificuldade para prever essas condições? Para a previsão do tempo se usa modelos matemáticos baseados em várias informações do comportamento físico-químico dos atores que atuam como temperatura, umidade do ar, pressão atmosférica etc. em vários níveis (desde o solo até camadas mais altas). Além disso, o comportamento ou interação desses elementos entre a atmosfera, a terra e o mar. Cada um dando suas contribuições. Assim, um modelo trabalha com essas várias questões. Não temos um modelo único, mas vários. Cada um com uma concepção. Ora diferenciada, ora semelhante. Pesos diferentes etc. Além disso, os modelos trabalham com uma grade (resolução espacial) de informações diferentes. Temos modelos globais, regionais e locais. Um exemplo é o modelo do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) o “COSMOS”. Segundo o INMET é “O Consortium for Small-scale Modeling (COSMO) faz parte de um consórcio de vários países (Alemanha, Suíça, Itália, Grécia, Romênia, Polônia e Rússia), sendo um modelo de predição numérica de tempo não hidrostático e área limitada, que pode ser processado com resolução espacial, por exemplo, de 7 km a 2.8 km”. Com essas diferenças entre concepções de modelos temos diferenças nos prognósticos. O acerto quanto a chuva é semelhante, ou seja, vai chover ou não. A diferença se dá onde e o quanto.
Finalizando. Para darmos conta das diferenças físicas da própria chuva e da modelagem, utilizamos outros instrumentos para uma melhor aproximação com as imagens de satélite e de radares. Um radar calibrado nos dá uma melhor aproximação. Aqui não entrarei nas questões de impermeabilização do solo, assoreamento dos rios etc. Com todas essas variáveis, mais os aspectos geográficos (relevo, latitude, altitude, continentalidade etc.) torna a ciência meteorológica e climatológica desafiadora.

Mapa com alguns pluviômetros de Itajaí e Navegantes. Veja como a chuva se distribui de forma diferenciada.
